Algodão
“A espinha dorsal de uma roupa é o tecido no qual foi feita, e se este tecido foi mal escolhido, a roupa jamais será bonita”, afirmou Geneviève Antoine Dariaux, diretora da maison Nina Ricci e autora de um dos manuais de etiqueta mais influentes do século XX. Nos anos 1950, a exemplo do que acontecia na França, no âmbito da alta-costura, os industriais têxteis brasileiros investiram em parcerias com estilistas de destaque da moda nacional e internacional. O objetivo era promover os tecidos produzidos no Brasil – especialmente o algodão.
Essas campanhas exigiram uma atuação coordenada entre os fabricantes e a imprensa – naquele momento um dos principais agentes de formação do gosto e da opinião pública. Trava-se de vencer a desconfiança dos consumidores brasileiros com o que vinha de fora. A divulgação do algodão almejava a valorização dessa fibra, ressaltando suas qualidades estéticas e funcionais, ao tentar convencer o público de que a elegância podia ter origem nacional.

Por ser uma fibra natural forte, de custo relativamente baixo, fácil de lavar e pouco dependente de tratamentos químicos complexos, o algodão se consolidou como a principal matéria-prima da indústria têxtil brasileira, ocupando posição central na produção de tecidos no país. O excelente algodão Seridó, por exemplo, cultivado no Rio Grande do Norte e na Paraíba, fornece uma fibra de alta qualidade, longa, fina e resistente, que foi exportada para a Inglaterra e o Japão, para a produção de linhas de costura e de bordar. Internamente, as empresas nacionais o chamam de “ouro branco” potiguar.
Na década de 1950, ciente de que a valorização do algodão dependia também de sua inserção no universo da moda, a Fábrica Bangu firmou parcerias com célebres criadores da alta-costura francesa, como Jacques Fath e Hubert de Givenchy, reforçando a ideia de que seus tecidos eram sofisticados e atuais. Vale destacar que a promoção do algodão brasileiro teve como uma de suas principais lideranças, Assis Chateaubriand – proprietário dos Diários Associados e do Museu de Arte de São Paulo, àquela altura senador, e uma das figuras mais influentes e poderosas da imprensa nacional. Chatô, como era conhecido, organizou e ajudou a financiar diversas iniciativas de divulgação dos tecidos produzidos no Brasil.

Uma das ações promovidas por Assis Chateaubriand – em parceria com os diretores da Fábrica Bangu – foi a vinda de Jacques Fath, um dos principais costureiros de Paris, para o Brasil, em setembro de 1952. Fath gozava de grande notoriedade no Brasil, onde aparecia com frequência nas seções de moda do estilista Alceu Penna. Jacques Fath veio ao país acompanhado de uma pequena comitiva para apresentar suas criações feitas com algodão produzido pela Bangu. A turnê, que percorreu Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, teve ampla divulgação na imprensa, os desfiles foram transmitidos pela Rádio Nacional.
Foi mais uma ação de promoção da fibra tropical, cujo principal objetivo era a valorização do algodão “aos olhos não dos europeus, mas das elites locais, que ainda achavam ‘uma pobreza’ vestirem-se com tecido nacional”. Era, portanto, uma iniciativa que combinava interesses econômicos e políticos, articulada entre Assis Chateaubriand, os diretores da Fábrica Bangu e o costureiro.

Embora o nome mais famoso da alta-costura francesa naquele momento fosse Christian Dior, Jacques Fath se destacava por sua intensa vida social. Especialmente, por sua atuação nos bailes à fantasia que promovia no castelo de Coberville, sua propriedade, localizado nas proximidades de Paris.
Poucas semanas antes da viagem do costureiro ao Brasil, seu castelo foi palco da festa Carnaval a Rio, organizada para promover o algodão Seridó. Mais uma vez, um empreendimento Chatô-Bangu, que também contou com a participação de outras fábricas, por exemplo Corcovado, América Fabril, Cia. Rhodia Brasileira, Fábrica Rio Tinto, da Paraíba, e a Tecelagem de Algodão de Pernambuco.

A famosa festa de Coberville teve uma quantidade enorme de convidados, três mil pessoas, que assistiram a apresentações de artistas brasileiros, como a Orquestra Tabajara, as cantoras Elizeth Cardoso e Ademilde Fonseca, o sanfoneiro Zé Gonzaga e o sambista Jamelão. Tocaram samba canção, choro, frevo, xaxado, samba, cateretê, e cururu. A revista O Cruzeiro, que pertencia a Chateaubriand, noticiou que a imprensa europeia havia ficado impressionada com a excelência e a qualidade dos tecidos na festa do algodão Seridó. Os vestidos das elegantes brasileiras foram confeccionados na maison Jacques Fath.

Ao final da reportagem, com fotos e texto de José Medeiros e Carlos, eles concluem que “o mundo tomou conhecimento de uma indústria têxtil capaz de competir nos mercados internacionais com um produto que a elegância da mulher europeia de há muito reclamava: os tecidos brasileiros de algodão”. A frase tem uma ambiguidade interessante, já que a moda brasileira é apresentada como um desejo de consumo da mulher europeia, o que poderia instigar o interesse do público local.
