Miss Elegante Bangu

Em 1951, Maria Cândida, ou dona Candinha, esposa de um dos diretores da Fábrica Bangu, Joaquim Guilherme da Silveira, organizou um desfile em que senhoras da alta sociedade carioca apresentaram vestidos de praia, passeio e baile, todos executados com tecidos da fábrica. Realizado em benefício da organização de caridade Pequena Cruzada, o evento atraiu mais de mil e quinhentas pessoas aos salões do Copacabana Palace, interessadas nas “consideráveis possibilidades do Brasil no setor da moda”, para usar as palavras do colunista G. de A., pseudônimo de Gilberto Trompowsky, na seção “Mundanismo”.

“A sociedade carioca adota definitivamente os tecidos de algodão: a Bangu dita a moda, as elegantes aprovam e o algodão mais uma vez domina”, anuncia a revista O Cruzeiro, grande incentivadora do tecido brasileiro na alta sociedade. À esquerda, as senhoras Carlos Eduardo de Sousa usa o modelo “Itaipu”, Miguel de Faria o vestido “Arco-íris”, Álvaro Catão com o modelo “Moça bonita”, Fernando Delamare usa o traje “Feirinha”, e M. Bernardez Müller com o modelo “Saci”, em fustão abóbora e preto; ao centro, “senhora Joaquim Guilherme da Silveira, idealizadora do desfile”; O Cruzeiro, 27/10/1951, fotografias de Carlos

A favor da indústria nacional, a alta sociedade se dispunha a rever um antigo tabu relacionado às roupas de luxo: a ideia de que apenas a seda seria apropriada para bailes e ocasiões formais. Em algodão, organdi, linho e cambraia, os modelos chamaram a atenção pela qualidade das cores, pela modernidade das estampas e pela capacidade de substituir, com elegância, materiais tradicionalmente associados ao luxo, como veludos, cetins e brocados.

“Yacht Club”, “Frajola”, “Maringá”, “Guarujá”, “Icaraí”, “Colibri”, “Itapoã”, “Paquetá”, “Sinhá”, “Carijó” e “Iguaçu” são os títulos de alguns dos vestidos, que remetem a elementos marcantes da natureza, da cultura e da indústria brasileiras, reforçando ainda mais o caráter nacional da iniciativa. O público, que ansiava por novidades de moda, era numeroso e estava entusiasmado. Páginas da revista O Cruzeiro, texto de Alceu Pereira, fotografias de Carlos, 27/10/1951

Os trajes foram confeccionados pelas costureiras Maria Angélica, Carolina, Araci, Ondina e Celina, que criou os chapéus. A Fábrica Bangu, com sua gama diversificada de tecidos de qualidade, é provavelmente a tecelagem carioca mais importante para a história da moda. O desfile realizado no Copacabana Palace, conclui a reportagem publicada em O Cruzeiro, “marca uma época na indústria têxtil, que anda agora de braço dado com a moda lançada diretamente do Rio de Janeiro, e que é uma glória para todos nós que podemos nos orgulhar de possuir, no país, uma fábrica de tecidos da qualidade, da categoria e da sabedoria da Bangu”.

Depois do sucesso do desfile promovido pela Fábrica Bangu no Copacabana Palace, em 1951, a ideia foi ampliada e os diretores da tecelagem resolveram implementar o concurso como um acontecimento anual. Fazer com que o Miss Elegante Bangu se tornasse parte do calendário permanente da moda carioca era uma ótima estratégia de propaganda da fábrica, ao mesmo tempo em que já promovia uma ideia de moda autoral.

Desde o primeiro concurso Miss Elegante Bangu, os modelos desfilados foram desenhados pelo costureiro José Ronaldo, considerado por muitos o pioneiro da alta-costura brasileira. Uma vez ao ano, competiam candidatas de todas as partes do Brasil, usando roupas sofisticadas confeccionadas com algodão da Bangu. Eram vestidos compridos, bastante rodados, plissados, com a roda da saia godê, o chamado godê guarda-chuva. Os sapatos eram os scarpin, decotados.

Flagrantes do primeiro concurso Miss Elegante Bangu publicados na revista O Cruzeiro. No alto, à esquerda, a princesa Fátima de Orleans e Bragança, no momento da apuração, entre Herbert Moses, então presidente da ABI, e Joaquim Guilherme da Silveira, diretor-comercial da Fábrica Bangu. À direita, a senhora João de Saavedra, cujo nome de solteira era Gilda Bandeira de Mello, entre Jorge Guinle e Roberto Marinho, franco apoiador do concurso. Ao centro, as senhoritas Corina Baldo, vencedora do certame, com um vestido de organdi bordado, e Maria Leonor Mendonça Simões, com um vestido estampado amarelo e branco, de frente única e saia plissada, também de organdi, fotografias de José Medeiros e Carlos, 14/02/1953

Toda a elite carioca compareceu aos salões do Copacabana Palace que estavam lotados na noite quente daquele sábado, 24 de janeiro de 1953, quando foi realizado um grande baile para que fosse eleita a Miss Elegante Bangu de 1952. O júri era composto das figuras mais representativas, nomes consagrados nas artes, na crônica social e na elegância brasileira, como os jornalistas Marilu Montenegro, Alceu Penna, Gilberto Trompowsky, Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued, o pintor Santa Rosa, senhores e senhoras da burguesia abastada e até membros da família Orleans e Bragança.

Mais de trinta concorrentes desfilaram, cada uma, dois vestidos, penteadas por Maria, do Baldini, e maquiladas de Elizabeth Arden. Eram moças de todos os estados do Brasil, representantes dos principais clubes esportivos do país, que indicavam suas candidatas. Verdadeiras multidões compareciam às agremiações quando se realizavam eleições das concorrentes. A imprensa anunciou que era a primeira vez que um concurso de tal importância se realizava no Brasil. A mobilização que o Miss Elegante Bangu provocou aproximou seus tecidos de moças da elite e também de jovens da classe média.

A senhorita Corina Baldo, de 21 anos, jovem funcionária da Embaixada Americana, foi a primeira colocada no concurso e recebeu a faixa de Miss Elegante Bangu de 1952 das mãos de Joaquim Guilherme da Silveira. Corina, que mais tarde se tornaria mãe do ator Felipe Camargo, usa vestido de organdi na cor mauve plissado e bordado com canutilhos. Ecktachrome de Nicolau Drei e Yllen Kerr, Manchete, 07/02/1953

Os desfiles promovidos pela Fábrica Bangu tinham ainda o mérito de serem beneficentes, pois toda a renda era destinada a ajudar uma instituição de caridade. A escolha anual da Miss Elegante Bangu se consolidou como a noite de gala do algodão brasileiro, o público elegante superlotava os salões do Copa. Aconteceu quatro vezes, em edições bienais, e os desenhos dos vestidos foram todos assinados por José Ronaldo. Ao final da década de 1950, o concurso era anunciado como o maior evento de elegância da América do Sul.

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